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27.1.12

Obrigada

Obrigada por tudo.

Por estar sempre comigo, saber de tudo que acontece em minha vida e não me julgar. Obrigada, principalmente, pelo seu silêncio quando confesso meus pensamentos mais obscuros.

Obrigada por me ajudar a por tudo pra fora, a organizar meus pensamentos e por mostrar para mim a real dimensão dos meus problemas.

Você tem sido perfeito. Sem você, eu não teria conseguido nem colocar minhas contas em dia, imagina então minha vida! Aliás, eu não consigo pensar na minha vida sem você.

Eu sei que às vezes abuso da sua boa vontade, e que você pode achar que eu só te uso e depois jogo fora. Não pense assim. Tudo que nós vivemos juntos vai ficar para sempre na minha memória. Algumas coisas eu até queria esquecer, mas, além de meu confidente, você é uma espécie de arquivo... depois que exponho para você qualquer coisa, ela parece que fica gravada em mim.

Obrigada por aguentar minhas histórias repetidamente, incansavelmente. Again, and again, and again, and again. E por suportar algumas gafes terríveis, eu confesso, e me dar a oportunidade de apagar tudo e começar de novo. E por permanecer ali, totalmente à minha disposição, enquanto eu penso no que falar, mesmo que isso demore o dia todo e a gente fique só olhando um para a cara do outro. E pelos momentos de mau humor. Sei que às vezes passo dos limites e peso a mão. E você continua ali comigo.

Mas, fala a verdade, eu também tenho meus bons momentos. Tem hora que eu sinto até um certo orgulho de algumas coisas que divido com você. Claro, você é fundamental nisso, juntando informações para me ajudar, me lembrando de algumas coisas, e me dando espaço total para eu ser quem eu quiser. Nessas horas... ah! A gente forma uma bela dupla, hein!

Ai, papel, o que seria de mim sem você?


PS: esse agradecimento também é válido para o “papel do word” em que eu digito!

26.1.12

Sobre escolhas e prioridades

A vida é feita de escolhas. Talvez esse seja o maior clichê da face da Terra. Mas, pelo que vejo, essa frase tem sido muito mais falada do que entendida por aí.

Casar ou comprar uma bicicleta? Fazer Letras ou Medicina? Comprar um carro ou viajar pelo mundo? Alguns momentos, normalmente aqueles em que tomamos uma decisão que vai mudar nossa vida, deixam clara essa questão das escolhas. O fato é que não é só nesses grandes momentos que fazemos nossas escolhas. Aliás, as grandes escolhas de verdade são aquelas do dia a dia, aquelas que não envolvem sonhos - porque, no fundo, esses tais momentos que deixam clara essa questão da escolha, têm mais a ver com realização de sonhos, são resultado de tudo que pensamos e desejamos ao longo da vida.

As escolhas de verdade, aquelas que mostram quem você é e, paradoxalmente, definem quem vocês é, são aquelas que fazemos sem ter tempo de sonhar, aquelas que nunca pensamos que teríamos que fazer. E exatamente pela natureza imprevisível destas questões é que elas revelam e definem quem somos, porque a única forma de fazer essas escolhas é seguir nosso instinto, que faz valer nossas prioridades.

Não existe certo ou errado. Existe você, suas prioridades e suas escolhas. Sim, você é responsável por essas escolhas. Mesmo quando decide não escolher e deixar que a situação se resolva sozinha, você está escolhendo não tomar nenhuma atitude. E, normalmente, quando é assim, você até já sabe onde tudo vai dar, mas a verdade é que você não quer assumir que escolheu efetivamente aquele caminho ou aquele resultado, e sempre vai ter a muleta do “eu não pude fazer nada”, “eu não tive escolha”.

Sim, você teve escolha. Mas talvez você ache que sua prioridade não seja assim tão louvável. Não é culpa sua. Talvez as pessoas, a sociedade, o mundo, ou você mesmo, esperem coisas maiores de você, e se revelar extremamente humano poda causar algum desconforto, vergonha, ou medo de ser julgado.

Talvez suas prioridades só sejam um pouco diferentes das que as pessoas costumam ter. Ou talvez sejam as mesmas que as pessoas preferem esconder que também têm. Talvez seu emprego seja mais importante que sua saúde, seus amigos sejam mais importantes que seu chefe, o amor da sua vida seja mais importante que sua família, talvez sua consciência importe mais que sua conta bancária, talvez sua imagem importe mais que seu saldo. Ou vice-versa. Quem sabe?

A vida, a história, as experiências e expectativas são suas. Você escolheu. Infle o peito, sim, e conte para quem quiser ouvir aquelas escolhas que fizeram você sentir orgulho de si mesmo. Ou junte todas e escreva um livro. Transforme essas escolhas em exemplos, faça com que os velhos admirem e os jovens queiram ser como você.

E quanto àquelas escolhas que você fez e que não são exatamente motivo de orgulho, quanto àquelas que você deixou de fazer por medo, vergonha ou preguiça de pensar, e ainda quanto àquelas escolhas que você deixou que outra pessoa fizesse por você, através das prioridades dela... assuma que todas elas foram, sim, escolhas suas. Não precisa ser para quem quiser ouvir, nem num livro. Mas tenha consciência, por mais difícil e doloroso e vergonhoso que possa ser, de que foi você, sim, o responsável por elas. E tente dormir em paz com isso.

23.1.12

Entrelinhas

Enquanto ela falava, eu ficava ali pensando se ela sabia que eu sabia que era tudo mentira.
Não que eu não estivesse ouvindo. Eu estava. Cada palavra. E usando cada palavra para tentar desvendar esse mistério: será que ela sabia?

Eu sabia que tudo estava para terminar, nossa relação já estava desgastada. Eu já estava cansado de ceder e ela ainda não estava pronta para começar. Mas a questão não era o que eu sabia. Para mim tudo estava claro e, mesmo com o fim, tranquilo. Só essa curiosidade que ficava ali cutucando meu cérebro enquanto ela sorria um sorriso de satisfação.

Será que ela sabia que nós dois estávamos ali mentindo um para o outro? Não que fosse preciso, tudo já tinha terminado, não tinha mais volta. Se um dos dois quisesse, aquela era a hora de falar tudo que estava engasgado, de lavar roupa suja, de jogar na cara. Mas não foi assim. E eu podia até falar que era por respeito a tudo que a gente viveu junto, afinal, foram anos, mas o que existia entre a gente, nos últimos tempos, era pura aparência. Um suportava o outro enquanto ninguém achava um motivo minimamente justificável para por fim àquilo tudo.

Enquanto nenhum dos dois encontrava uma razão, ou não perdia a razão e terminava tudo, como os dois queriam, o que eles tinham se resumia a uma convivência tão pacífica quanto um acordo de cavalheiros do velho oeste, mas funcionava. Cada um fazia o que tinha que fazer e todo mundo em volta achava que estava tudo bem. Simples assim. E isso não é exatamente o que se pode chamar de respeito.

Mas, enfim, ela resolveu dar o primeiro passo. Honestamente, não sei se por medo, insegurança, ou se já tinha arrumado alguém para o meu lugar - o que, modéstia à parte, acho improvável. O fato é que ela resolveu dar cabo dessa relação que já estava aos trapos.  

Assim, como que numa inércia do que vinha sendo há alguns meses - talvez anos, quem sabe? - ela me disse adeus sorrindo. Ou será que não era inércia, e sim o primeiro sorriso sincero que eu recebia dela em muito tempo? Era essa a questão. Será que ela sabia que tudo aquilo era mentira? Será que ela sabia que EU sabia que era mentira?

Sei que ela andou dizendo poucas e boas por aí. Sei que colocou algumas palavras em minha boca. Sei que sua versão da história foi a mais contada e não me importei muito em mostrar a minha. O tempo se encarrega de mostrar a verdade, eu tenho paciência para esperar e não tenho medo do que pode ser revelado.

Ela sempre teve uma imagem impecável, daquela que todos querem ser quando crescer, mesmo os mais crescidos. E só com muito tempo e muito cuidado é que alguns percebem essa face que ela trabalha arduamente para esconder e, com sucesso, consegue, tenho que reconhecer. Eu, honestamente, ainda não sei dizer se esse lado obscuro tem consciência de sua existência e é assim por opção, ou se a insanidade é tão grande que ela criou um mundo paralelo a este e vive nos dois, sem saber distingui-los.

Se ela tem tanto trabalho para escolher cada palavra de cada um de seus discursos, eu só posso chegar à conclusão de que ela tem consciência, sim, desta sua faceta não tão louvável. Mas sua atuação é tão perfeita que me deixa em dúvida se é atuação realmente. Então penso que ela é assim mesmo e a única explicação plausível é a vida dupla que ela leva neste e naquele mundo imaginário que ela criou.

O fato é que, nas entrelinhas daquele sorriso final, minha pergunta vai ficar sem resposta: ela sabe que ela mesma está mentindo?   

13.10.11

Briga

Elas estavam mais do que com raiva. Elas estavam putas mesmo.

Uma parou bem de frente com a outra, as duas respirando alto, olhando no olho. Até que a primeira frase saiu:

- Você fez de novo! De novo!

- Eu sei...

- Sabe mesmo! Tanto sabe que já tinha prometido não cair na mesma besteira. Pensa que eu não lembro como foi da última vez? Você lá, arrependida, se sentindo idiota, sem conseguir entender como não tinha visto no que tudo aquilo ia dar. Suas atitudes, suas palavras, seu tom de voz...

- Não foi assim. Eu fiz o que tinha que ser feito. Alguém precisava falar. E eu não estava mais aguentando! Eu tinha que fazer. E dessa vez eu achei que ia ser diferente.

- Ah! Você achou que ia ser diferente? Por que seria diferente justo dessa vez, se todas as outras vezes foram exatamente iguais? O que você achou que ia mudar?

A raiva ia aumentando. O rosto das duas ia ficando cada vez mais vermelho.

- Eu sou a única pessoa no mundo que entende você, que enxerga a mesma coisa que você. Você sabe disso. Então você não devia falar assim comigo, devia tentar me entender melhor, ver que eu fiz o que achava melhor.

- Mas você devia pensar antes de sair dizendo as coisas.

- Eu pensei! Claro que eu pensei. Eu já tinha pensado em tudo um milhão de vezes, já estava cansada de pensar, pensar, pensar.

- Pensar, pensar... Pensou tudo errado, de novo. Pensou igual você pensou das outras vezes, e aí deu tudo errado, igual deu das outras vezes. Você mesmo fala que errar é humano e que insistir no erro é burrice... Você é insistente, hein!

- Não fala assim comigo. Você sabe que eu não sou burra!

- É mesmo. Você não é burra, é ingênua! Como pode? - Nossa, que raiva! - Não consigo me conformar com a sua estupidez. Não entra na minha cabeça você insistir em achar que as coisas vão mudar, que as pessoas vão pensar como você, que existe jeito pra esse mundo. Não tem jeito! NÃO TEM!

O grito abriu caminho para as lágrimas que ela fazia força para não deixar escorrer.

- Idiota, é isso que você é. Você acha que pensa, acha que sabe o que vai fazer, acha que pode prever as reações das pessoas, acha isso, acha aquilo, e se perde no meio do caminho. E pior: me deixa assim.

- Te deixo assim? E eu? Como você acha que eu fico? Eu me torturo o tempo todo passando e repassando toda conversa que tivemos, cada palavra que eu disse e ouvi, cada gesto. É uma tortura isso, sabia? Fico me perguntando se eu não devia ter falado mais. Ou talvez menos. Ou ter dado uma resposta diferente. Aliás, já pensei em um milhão de formas diferentes de falar e de não falar, de fazer e de não fazer, tudo que eu já falei, fiz e deixei de falar e de fazer.

Silêncio. A raiva ia se transformando em decepção, frustração, mantendo a vermelhidão no rosto. As sobrancelhas, a boca e as bochechas iam caindo, como se sentissem vergonha. Vergonha de toda a burrice que estava diante dela. Decepção por saber que, no fundo, ela já sabia o que ia acontecer e mesmo assim não fez nada para impedir. E pior, muito pior: frustração. Porque ela sabia que essa não seria a última vez.

Ela conhecia aquela pessoa que estava na sua frente. Sabia que, mesmo depois de tudo que ela tinha falado e ouvido, ela ia sofrer um tempo, e depois ia se acostumar com a dor e esquecer a frustração, e depois ia começar a ver de novo a beleza que ela achava que as coisas tinham, e depois ela ia de novo tentar consertar o que ela achava que estava errado, e depois tudo aquilo que estava acontecendo naquele momento ia acontecer de novo.

Então as duas, que se olhavam nos olhos, ao mesmo tempo baixaram a cabeça desviando do olhar inquisidor uma da outra, mesmo sabendo que as duas pensavam da mesma forma e que o olhar não seria inquisidor, e sim de dó. Na verdade, talvez por isso elas evitaram se olhar nos olhos novamente. O sofrimento já era o bastante, não havia necessidade de agravar tudo com o peso da pena.

Só mais um suspiro antes de se afastarem, e ela apagou a luz, saiu da frente do espelho e foi se deitar sozinha, com uma noite inteira pela frente para ficar se torturando, passando e repassando tudo que aconteceu.

7.10.11

Aftertaste

Amargo. Aquele amargo com um gostinho de ferro por causa do soco na boca, que me fez engolir um pouco de sangue enquanto a bile subia, no sentido contrário, provocando náusea.

Atordoada, minha única reação foi tentar segurar o vômito e o choro, ao mesmo tempo.

Apesar dos golpes suaves esporadicamente, eu não estava preparada para aquilo. Eu sei, a culpa do despreparo era toda minha, da minha cegueira opcional, da minha busca incansável de tapar o sol com a peneira, como dizem.

Aliás, a essa altura, a culpa já é minha amiga íntima. Ela e as dúvidas. As únicas que ficaram do meu lado depois da surra. Ficaram o tempo todo ali comigo, conversando entre elas, porque eu não tinha nem ânimo, nem força para falar nada.

- Será que não foi você mesma que provocou tudo isso?

- Você sabe como as coisas são, como as pessoas são, e mesmo assim continuou agindo da mesma maneira. Você devia ter pensado antes.

- Como você não percebeu que isso ia acontecer? Estava tudo na sua cara!

- Você é ingênua demais. Acha que todo mundo é bom. Você se esconde atrás do argumento de que isso é sinal de bondade, mas na verdade é sinal de burrice.

E elas não paravam de me metralhar com comentários que faziam cada vez mais sentido na minha cabeça, me deixando mais atordoada e com menos força.

Eu já estava ajoelhada, implorando em silêncio para que alguma boa alma me pegasse pela mão e me mostrasse que aquilo não tinha sido uma surra, e sim um abraço muito apertado, que eu é que tinha confundido tudo. Mas as pessoas passavam por mim e não me notavam ali no chão. As poucas que vinham até mim disfarçavam sua curiosidade mórbida com a oferta de um ombro.

Confesso que, mesmo sabendo disso, me vali dos ombros para tentar encontrar apoio, mas quando as palavras são vazias elas não podem suportar nada. Então o chão voltava a ser o meu lugar.

O gosto amargo da traição, o azedume da revolta comigo mesma, a cabeça erguida, não por satisfação, mas para tentar em vão que as lágrimas não escorram mostrando ao mundo minha vergonha. É isso que sobra quando a admiração se transforma em decepção.

21.9.11

A dona da floricultura

Miúda, olhos vivos, dinâmica. A dona da floricultura era dessas mulheres que aparentam ter bem menos idade que indicam seus documentos, e mesmo sabendo disso, ainda assim você se espantaria se soubesse quantos anos ela tem de tão bonita.

Não que beleza seja sinal de juventude, ela bem sabia disso, mas hoje beleza derivar de juventude é pressuposto universal. Enfim, a dona da floricultura é bonita. Os mais de 20 anos trabalhando com flores renderam a ela uma delicadeza única. E esses mesmos anos deram a ela um quase-poder de prever o futuro só de olhar para as pessoas.

Claro que não foi de uma hora para outra, assim, de repente. No início ela só queria tentar adivinhar o que cada pessoa que entrava na sua loja estava precisando.

O rapaz que entrava todo sem jeito, perguntando de rosas vermelhas, provavelmente estaria comprando flores pela primeira vez para a namorada. E provavelmente ele nem sabia o nome de outra flor, e havia escolhido vermelho porque é a cor da paixão.

E a mulher com pressa, que chega no fim da tarde, com os filhos recém-saídos da escola, carregando bolsa e agenda, com cara de cansaço e mau humor, que vai direto para as orquídeas? Com certeza é aniversário da sogra, o marido esqueceu e sobrou para ela comprar o presente da mulher. Então ela vai direto nas orquídeas, que a sogra sabe que são caras e refinadas, e não perde tempo com isso. Afinal, a velha vai achar lindo o cuidado que o filho teve em escolher cuidadosamente flores tão lindas.

As duas moças que entram e ficam perdidas, olhando que flor que combina com que vaso, que combina com que cartão, que combina com que chocolate, que combina com que bichinho de pelúcia e que combinam com o quanto elas combinaram que podiam pagar, na certa são irmãs escolhendo presente para a mãe. E mais: é bem possível que essa era a primeira vez que elas pagariam pelo presente sem a ajuda do pai. Talvez o pai ainda fosse comprar um presente e dar para elas entregarem à mãe. Talvez ele até pedisse para que elas comprassem o que quisessem para a mãe que ele pagaria. Mas elas queriam sentir o gosto de poder pagar pelo que escolheram.

Tinha também os eventos que ela decorava. Aniversários, batizados, festas de empresas, premiações, bodas, hotéis. Não eram só as flores, mas os vasos, pedestais, cor de tapete, toalha de mesa, arranjo, folhagem, ramalhetes para homenagens, igrejas, salões. Cada tipo de evento pedia um tipo de decoração, uma cor específica, sóbria, alegre, romântica, elegante.

E, claro, tinha os casais. Tinha os arrojados, que queriam materiais diferentes em composições inovadoras, às vezes até sem flores. Os exigentes, que queriam tudo exatamente do jeito que pediam – ela dizia que os arquitetos eram os mais difíceis de atender, porque entendiam de decoração e queriam coisas diferentes, engessando o trabalho dela. Tinha os indecisos, com os quais ela tinha que conversar bastante para entender o tipo de relacionamento e dar uma direção para as opções que mais combinariam com eles. Os casais que iam separados, ela para escolher tudo e ele para pagar. Os casais que levavam a mãe, a sogra, a irmã, e cada escolha virava uma festa – ou uma discussão. Aqueles que não ligavam muito para tantos detalhes porque estavam muito apaixonados para enxergar alguma coisa além deles mesmos. E aqueles que queriam saber de todos os detalhes porque, afinal, uma festa de casamento mostra para a sociedade o quanto eles estão investindo neste relacionamento.

Tinha as mães dos casais que opinavam, exigiam, evitavam participar, apoiavam, reclamavam, pagavam, concordavam, discordavam, entendiam de tudo, não entendiam de nada.

As noivas calmas, nervosas, delicadas, espontâneas, desajeitadas, refinadas. Os noivos impacientes, participativos, carinhosos, ausentes, compreensivos.

Era essa combinação de clientes e situações diferentes que, junto com a delicadeza que se instalara naquela alma e a vivacidade que seu olhar demonstrava, que deram à dona da floricultura essa sensibilidade de prever algumas coisas. E quando aquele casal entrou pela primeira vez em sua floricultura dizendo que queria saber de decoração para o casamento deles, ela abriu um sorriso e convidou os dois, que tinham levado suas mães junto para ajudar a dar opinião, a subir as escadas e conversar com ela em seu escritório.

Eles subiram, conversaram com ela por mais ou menos meia hora. Já tinham algumas ideias, pediram outras a ela, e, trocando olhares confidentes, escolheram tudo tranquilamente, sem aparentar dúvida, sem nada tendo que descer goela abaixo de nenhum dos dois, com todas as opiniões ouvidas e ponderadas. Carinhosamente. Juntos. E no fim da conversa, com tudo quase certo, a dona da floricultura sorriu mais uma vez e disse aos dois: - Só de olhar, eu sei quando um casamento vai dar certo. E o de vocês, com certeza, só pode ser feliz, porque vocês são exatamente assim, feitos para dar certo.

Hoje, 30 anos depois, a noiva ainda conta essa história com o mesmo brilho no olhar com que segurou um buquê que a dona da floricultura fez para ela. E o noivo escuta essa história com o mesmo olhar carinhoso com que a olhava enquanto ela passava pelo corredor que a dona da floricultura decorou.

14.9.11

I can’t control my fingers, I cant’t control my brain.

Dispenso o sedativo e confesso que o título está invertido. Primeiro tentei controlar minha cabeça, e não consegui. Com a cabeça em total descontrole, este post é a prova de que falhei em controlar meus dedos. Mas Ramones dispensa comentários.

Claro que houve um período longo em que eu me mantive limpa. Nem precisei de tratamento, só parecia que eu não precisava mais dessas drogas de palavras, então não escrevia mais. Simples assim.

Até que, de repente minha cabeça começou a ficar perturbada de novo. Tentei não dar bola, fingir que não era comigo, que eu conseguia ser mais forte. Juntei todas as referências de auto-ajuda que tive saco de ler, mas quanto mais eu tentava contrair a síndrome da Polyana, mais irritada eu ia ficando. Conforme eu me agarrava a qualquer fio de esperança, mais nós iam se formando.

Aquelas tais pulguinhas que insistem em se instalar atrás das nossas orelhas foram se manifestando. Ora um, ora outra... até que todas começaram a gritar juntas, bem alto, e não era bem atrás da minha orelha, mas exatamente naquela curvinha acústica que faz a gente ouvir melhor, sabe?

Depois vieram meus demônios. Um de cada vez, chegando de mansinho, com cara de anjo, mas cheios de más intenções. Jogando com a minha mente, brincando com a realidade, flertando com meus defeitos...

Mas, mesmo com as pulgas e os demônios, eu ainda consegui me controlar. Tive noites bem difíceis, é verdade, tentando dormir enquanto algumas palavras, e até frases inteiras, ficavam rondando meus pensamentos. Comecei a pensar que uma recaída talvez não fosse tão ruim assim. Mas fui forte.

Fui muito forte. Até que aconteceu o que não podia. No fundo, eu sabia que era inevitável, que era só uma questão de tempo. Não sabia ao certo quanto ia demorar, quanto eu ia aguentar. Só tinha uma certeza inconfessável de que ia acontecer de novo. E aconteceu: vieram as pessoas.

Suas ideias, suas palavras, suas atitudes, suas desculpas, seus silêncios, suas caras e bocas, suas histórias, seus ensinamentos, suas qualidades, seus defeitos, seus desejos, suas decepções, seus rancores, suas saias-justas, suas piadas, seus trabalhos, seus orgulhos, suas perfeições. E eu fiquei só com meus dedos formigando, quase usando a força física para controlar esses 10 malditinhos. Só que eles eram 10, e eu uma só, com a cabeça já sem controle. Aí foi impossível continuar sem escrever aqui.

Meu nome é Marcela, tenho 30 anos, e estava limpa havia 1 ano, 7 meses e 18 dias.
Mas agora estou de volta.

Obs: tenho que fazer um agradecimento especial às pulgas e aos demônios. Obrigada por não me abandarem. Com vocês me sinto mais viva, mais eu.

27.1.10

Vazio

Agora, de todas as coisas que moram em mim, o vazio é o que ocupa mais espaço.
O vazio de memórias que não tenho para manter você aqui comigo. O vazio de não ter sentido o cheiro dos seus cabelos, de não ter ouvido sua voz, de não ter tido você em meus braços. O vazio de me perguntar incansavelmente, incessantemente, se fiz alguma coisa de errado, e não ter resposta.

Saudade é o gosto do que aconteceu a acabou. E qual é o gosto de tudo que podia ter acontecido? Eu senti tudo. Eu senti, eu vi, eu amei cada dia que ia acontecer. E agora eu não sei mais nada. Agora todas essas coisas que iam acontecer, que eu sei que iam, estão aqui dentro de mim aumentando esse vazio.

Você não teve tempo de saber, mas eu escrevo porque tento preencher meus vazios com palavras. É por isso que estou escrevendo agora. Mesmo sabendo que este vazio não pode ser preenchido com nada, que só o tempo vai tornar tudo mais suportável. Agora não posso esperar o tempo, porque está doendo.

Ainda vou chorar por você. Assim como vou sorrir sempre que pensar em todos os momentos que estivemos juntos, mesmo tendo sido por tão pouco tempo.

22.10.09

Depois do fim

Vai, pode ir. Eu fico bem. Aliás, quero que você seja feliz.

Feliz daquela felicidade linear, aquela coisinha cotidiana que dá segurança, mas não dá frio na barriga. Aquela felicidade com cheiro de arroz com feijão.

Quero que essa felicidade consuma seus dias a ponto de não dar tempo de você pensar em mim, sentir saudade, se arrepender.

Só nos dias de chuva. Nestes, naquela hora em que todos os barulhos se silenciam e só dá para ouvir a água na janela, quero que você sinta uma leve melancolia. Não precisa nem pensar em mim, só sentir essa melancolia que deixa a gente em dúvida sobre o que está fazendo da vida, que dá um frio de pensar no presente, uma sensação de que tudo passou rápido demais, e emenda numa vontade de voltar num tempo que na lembrança parece mais quente e aconchegante. E aí sim, só por um momento, você pensar em mim se perguntando “o que será que ela está fazendo agora?”.

Desejo que você passe bem todos os dias. E no dia do meu aniversário, quando escrever a data ao assinar um documento, um cheque, ou quando perguntar para alguém “que dia mesmo é hoje?”, que você se lembre e, antes de continuar sua vidinha, dê um leve sorriso em segredo. E no dia do seu aniversário, quando você estiver introspectivo, pensando em todos os anos acumulados que está comemorando, que você guarde um minutinho para pensar como seria se eu resolvesse mandar uma mensagem desejando um feliz aniversário, se você reconheceria minha voz se eu ligasse para dizer parabéns.

Não quero fazer parte dos grandes momentos da sua vida. Quero os pequenos, os de dúvida. Eu sei, eu falei que não queria que você pensasse em mim, e não quero. Quero que minha imagem não seja uma escolha. Quero que ela apareça inevitavelmente em sua cabeça quando você estiver meio cansado da vida, pensando em como tudo seria se não fosse assim, como você mesmo escolheu. Ou quando você ouvir aquela música, num flashback qualquer.

De vez em quando, quero que alguém faça algum comentário com a minha cara perto de você. Alguma coisa tirada do meu repertório, mesmo que da seção de frases idiotas, e que faça você quase ouvir minha voz. Mas só de vez em quando. E aí você pensaria que seria legal me ter por perto, como amiga, só para conversar de vez em quando. Alguém com lembranças em comum para piadas que ninguém mais entenderia, a quem você pudesse confessar uma ou duas coisas sem medo de julgamento, que não pertencesse ao seu círculo de amizades, mas que estivesse sempre pronta para um café.

Eu quero que você odeie alguma coisa que eu adoro, pelo simples fato de eu gostar dela. Pode ser uma música, um filme, um livro, uma cor, qualquer coisa que eu goste muito e que você saiba, e por isso você odeie. Uma implicância sem sentido, que nem você consegue explicar, e por isso você acaba saindo do sério, perdendo a esportiva quando alguém pergunta por quê. Uma implicância que você até gosta de sentir.

Também quero que você ainda tenha guardado algum presente que eu dei, um cartão, uma foto, um bilhete. Alguma coisa que fique no fundo daquela gaveta que você nunca abre, e que você jura que está ali só porque ainda não lembrou de jogar fora, porque você realmente nem lembra do que tem lá dentro da gaveta. Mas que nos raros momentos em que você abre a tal da gaveta e encontra o presente, o bilhete ou a foto, você precise respirar fundo para conseguir lembrar o que estava fazendo.

Quando perguntarem quem é a mulher da sua vida, quero que você nem pense para responder que é ela. Mas que depois de uma resposta tão automática, você se pegue pensando em mim. E só.

22.8.09

Sai, se!

Por que parece que todo mundo já pensou em tudo e eu sou a única debaixo do céu que não sabe exatamente como as coisas são ou deveriam ser?

Eu vejo todo mundo fazendo planos a curto, médio e longo prazos e me pergunto: como se define isso? O que é exatamente longo prazo? E como alguém consegue prever o que vai querer no depois se tudo muda toda hora, conforme o que acontece, conforme o que eu vejo, ouço, sinto?

E ainda tem sempre um maldito se que me persegue. Cada vez que eu acho que descobri o que quero da vida vem um se e dá um peteleco no castelo de cartas que eu construí tão solidamente com as minhas certezas. E eu fico ali, catando ases e procurando reis pelo chão, tentando encontrar um coringa que se encaixe em qualquer plano. Um caminho que eu possa seguir com a certeza de não me arrepender depois. E outro se aparece enquanto eu ainda estou no chão para chutar minhas costelas e dizer que não importa o que eu faça, nunca vou me livrar dele. Ele é mais forte que eu. E faz questão de deixar isso claro.

Esse se me faz querer comprar um blazer e fazer uma pós em qualquer coisa cada vez que uma toda-poderosa-bem-sucedida-na-direção-de-um-negócio-de-sucesso aparece na foto principal da matéria sobre as mulheres mais influentes do universo rindo do meu life-style pizza toda noite e madrugadas de trabalho sem hora-extra. Depois me leva para a banca atrás da última edição da Runners a cada magra-com-estilo-de-vida-saudável-fácil-de-se-levar que passa perto da minha barriga que fica empurrando incansavelmente minha calça para todos os lados. E esse filho da puta desse se ainda me faz tentar adotar o ar da mais pura serenidade e ficar toda emotiva quando vejo mães embalando seus bebês como se fossem a coisa mais importante do mundo pra logo em seguida me fazer correr atrás de aulas de todo tipo de língua e começar a planejar meu mochilão afastando da mente a mais remota possibilidade de colocar alguém no mundo antes de conhecer efetivamente o mundo. E o se me enche de frustração, porque parece que ele só existe pra mim.

Ninguém mais tem dúvida? Ninguém quer trocar de vida? Ninguém tem medo de dar um passo? E de ficar parado no mesmo lugar?

Quero fazer tudo e não quero abrir mão de nada. E não quero sentir saudade de uma coisa que eu ainda nem vivi e nem me arrepender e nem ficar em dúvida e nem ter pouca idade para uma coisa e nem ter muita idade para outra coisa.

Aliás, quero chegar a ter muita idade para mandar todos esses ses pra puta que pariu e rir da cara deles, esfregar na cara deles que sim, deu pra fazer tudo, e que o medo que eles me meteram foi só um frio na barriga de montanha-russa. Que a companhia deles durante toda a vida foi irritantemente enriquecedora para o meu passaporte e para meu repertório de histórias. E só.