2.3.09
Quando o tempo não dá tempo
Vai se orgulhar de ter aproveitado cada momento?
Lamentar as oportunidades perdidas? Não ter 10 ou 20 anos a menos?
Começar a planejar cada detalhe do resto da sua vida como nunca nem tinha pensado em fazer antes de perceber a urgência com que os dias viram anos?
Gabar-se de todos os detalhes de cada conquista daquilo que norteia a sua vida? Dar o braço a torcer de que aquilo que você acreditou nortear a sua vida era apenas uma parte dela?
Blasfemar todo açúcar e toda gordura com que você se deliciou, arrependido por ter trocado sua saúde e um corpinho ajeitado por prazeres momentâneos? Invejar todos que conseguiram controlar essa tentação, porque agora parece que eles têm mais tempo e muito mais do que se orgulhar do que você?
Jogar tudo para o alto e mudar de direção para, no final, poder dizer que já fez loucuras?
O que você vai pensar quando se der conta das possibilidades que suas escolhas deixaram para trás? Vai querer voltar no tempo?
Vai convidar um amigo para tomar café e desabafar, na esperança de que ele acalme suas angústias dizendo, sem se dar conta, tudo que você quer ouvir?
Pintar o cabelo de uma cor diferente e comprar uma roupa nova para experimentar como você seria se fosse diferente do que você é?
Começar a ouvir jazz e tomar vinho para provar para você mesmo que o tempo passando significa evolução? Ou diminuir o tamanho das roupas e comprar um carro esporte para negar a implacável marcha dos anos?
Vai desejar ter praticado um pouco mais, sem culpa, alguns pecados capitais?
O que você vai fazer quando o que aparecer no espelho não for mais tão parecido com aquela foto da formatura? Quando você fizer aniversário quase no dia seguinte do seu aniversário anterior? O que você vai desejar quando cortar o bolo?
E agora? O que você vai fazer agora?
27.1.09
Dueto em Segredo
Ele é um homem casado, bem resolvido.
Ela, uma boa dose de diversão.
Ele, o charme da maturidade.
Ela, o elixir da juventude.
Ele, a independência.
Ela, a confusão de pensamentos.
Ele, o sabor do proibido.
Ela, os sonhos.
Ele, as certezas.
Ela, a espera.
Ele, a chegada.
Ela, o brilho nos olhos.
Ele, as palavras certas.
Ela, as desculpas esfarrapadas.
Ele, as histórias cuidadosas.
Ela, o instinto incontrolável.
Ele, o instinto de sobrevivência.
Ela, a pele pedindo.
Ele, a auto-afirmação exigindo.
Ela, a ilusão do feminismo.
Ele, devoto do machismo.
Ela, a inconseqüência.
Ele, o risco.
Ela, a conquista dele.
Ele, a perdição dela.
29.12.08
Saudade
Sinta falta de deitar com você na cama e ficar brigando contra o sono, só pra poder aproveitar um pouquinho mais a sua companhia. Não sei como vou ficar agora sem suas palavras, mesmo as amargas.
Eu sei que a culpa é minha, que fui rápido demais e que por isso esse fim chegou assim, de repente, me deixando parada, de boca aberta. E o pior é que quanto mais rápido eu mergulhava nessa nossa relação, mais próximo eu via o fim, mas eu não podia parar. Não naqueles momentos tão mágicos, tão íntimos, em que eu degustava cada pedacinho seu, saboreando cada detalhe seu com verdadeira fome.
Você pode dizer que outros virão e me deixarão tão ou até mais feliz que você. Outros me farão chorar. Tantos outros vão passar pela minha vida e me deixar marcada. E eu sei tudo isso. Ainda agora, enquanto choro nosso fim, já procuro outro para o seu lugar.
Não me critique por isso, por favor. Você é único, e sempre será especial. Nunca vou esquecer tudo que vivemos, mas você sabe que eu não sei ficar sozinha. Por isso vou até a estante me jogar nas páginas de outro.
Odeio quando isso acontece, e isso sempre acontece quando acabo um bom livro.
11.12.08
Química
Eu olhei para o céu e vi centenas, milhares de pára-quedas de celofane azul. Imensos, abertos. Mas eles não caíam, apenas flutuavam suavemente.
E conforme eu me perdia nessa dança azul, um gosto adocicado tomou conta da minha boca. Um gosto que me fez fechar os olhos para que eu pudesse sentir melhor e ser completamente só daquele gosto. Pertencer a ele. Um gosto delicadamente doce que começou a pinicar a sola do meu pé levemente, e que puxava os cantos da minha boca em direção às orelhas.
Mesmo que eu não quisesse, meus lábios se esticavam até as bochechas. Mas o caso é que não tinha querer ou não querer. A pinicação no pé começava a virar cosquinha (diminutivo carinhoso de cócegas, para quem não sabe) e o estômago gelava e se contraía, me fazendo rir incontrolavelmente.
Depois de ficar quase sem ar, aos poucos meu coração foi se acalmando, a respiração desacelerando. Minha pele estava gelada e o ar em volta de mim ficou quente, tão quente que senti um cheiro seco, vermelho, me sufocando. E aquele ar quente e vermelho era denso, tão denso que eu não tinha força de puxar para dentro do pulmão.
Os olhos foram escurecendo, escurecendo, e um medo angustiante deixou vazio tudo que tinha dentro de mim, como se minha alma estivesse aos poucos se desgrudando do meu corpo. E tudo ficou preto e gelado tão rápido que minha cabeça rodou, rodou, até que vi uns pontinhos brilhando no meio da escuridão.
Então percebi que havia anoitecido e as estrelas olhavam para mim. Todas elas observavam cada movimento meu, por menor que fosse.
O único movimento que fiz foi abrir os braços olhando para elas, para sentir aquele abraço protetor de veludo preto brilhante que me fazia a pessoa mais livre do mundo. Livre para ser eu mesma, para sempre.
Não, não é vício, é só a química. A química que existe entre nós.
11.11.08
Fim

Enquanto ela dorme tranqüila, ele silenciosamente pega umas camisetas, umas cuecas e o desodorante, que ele nunca esquece, e enfia na mochila. Parecia pequena a parte dele naquele apartamento, tão pequena que cabia numa mochila. Depois de 3 anos morando com alguém que sabe fazer tudo melhor que qualquer um, ele não se lembrava mais como era fazer uma mala.
Fechou a porta do quarto sem fazer barulho e sem nem mesmo olhar para o corpo dela esparramado na cama. Não porque estava bravo nem por medo de desistir. Não olhava porque simplesmente já não se importava.
Eram três horas, e ele estava sem sono. Abriu a porta do apartamento, colocou a chave na mesinha da entrada e fechou sem trancar, para não ter que levar a chave. Arrumou a mochila nas costas, desceu o elevador em silêncio, com a cabeça cheia de um monte de pensamentos ao mesmo tempo, mas nada muito claro.
Passou pelo porteiro, que dormia profundamente debruçado na mesa, e saiu. Desceu a pé a rua escura. Mais ninguém andava por ali. Depois de algumas quadras, virou a esquina em direção ao mundo, sumindo dessa história.
Naquele domingo, ela acordou tarde, passou a mão pelo colchão e não achou ninguém.
Viu a hora e foi para a sala ver o que ele estava assistindo na TV, mas o apartamento estava vazio. Uma sensação estranha apareceu na garganta e um frio tomou conta do peito, mas um sorriso meio bobo não queria deixar que ela visse o que estava acontecendo. Ela pegou o celular e ligou. Tocou, tocou e ninguém atendeu. Ela insistiu mais algumas vezes e desistiu. O olhar vago, perdido, procurava uma direção.
Ela sabia que isso ia acontecer. Não sabia quando, mas sabia exatamente por quê. Ele era calmo, eles nunca tinham brigado e ela abusava disso. Fazia o que queria, sem pedir licença ou desculpa, mesmo prevendo que esse seria o resultado, ora porque se esquecia, ora para aproveitar ao máximo tudo de bom que estava acontecendo.
E agora ela estava ali, sentada no sofá, olhando para o apartamento que já tinha sido só dela e depois, por 3 anos, foi o lugar dele, com as coisas dele, que ela fazia para ele, que ele ajudou a escolher, onde ele andava de cueca mesmo quando a janela estava aberta.
Ali ela ficou sentada, olhando o mundo para onde ele tinha ido sem conseguir enxergar nada claramente, quieta, até sumir no amargo da dor.
16.10.08
Nosso último encontro
O céu era uma mistura cuidadosa de vários tons de azul com um pouco de branco, iluminado. Tinha um cheiro de tranqüilidade que a fazia respirar fundo, como se aquele cheiro fosse acabar. Não ia. Nunca mais.
Ali, uns velhos conhecidos que havia tempo que ela não encontrava a chamavam para matar a saudade. E ela se preparava calmamente para ir encontrar com eles. E eu, egoísta que sou, não queria que ela fosse. Queria que ela ficasse ali, comigo.
Mas ela ia. Pedi para me levar junto, então. Ela disse que um dia levaria, mas não naquele dia.
E eu pedi para ela não ir. Pedi tanto que ela ficasse mais um pouco.
Mas ela já tinha ficado bastante. E acho até que ela já tinha cansado de ficar.
E aquele lugar pra onde ela ia era lindo, uma verdadeira pintura. E ela gostava tanto de pintura que não podia deixar de ir.
E eu sabia que ela ia e não consegui segurar nenhuma lágrima sequer. Eu sabia que ela não voltaria, que eu morreria de saudade, e que nada ia ser igual a antes porque ela tinha mudado minha vida. E estava mudando de novo.
Ela foi para a pintura. Eu ainda estou no cinza.
26.8.08
Descoberta
- Mãe, descobri uma coisa...
Pausa para uma respiração profunda, um arregalar de olhos e a certeza indiscutível.
- A gente tem uma caveira dentro da gente!
18.8.08
Num instante
Não importa quanto tempo já tenha se passado, quanto sofrimento já se tenha agüentado, quão forte a gente seja. Tudo acaba em um único instante.
É. E, de repente, não é mais.
Bem ali, diante dos nossos olhos. Que se abrem incrédulos para ver se enxergamos um sentido nisso tudo, mas a pupila dilatada deixa a realidade turva. Ou talvez mais clara. Talvez a realidade seja assim mesmo, mais dura do que costumamos ver no dia-a-dia.
Talvez a correria do dia-a-dia amacie nossa percepção do mundo. A falta de tempo deve ser um truque para que a gente não pare, não pense e não viva em função deste único instante.
Porque, afinal de contas, é um instante tão rápido que não devia guiar nossas vidas. Mas ao mesmo tempo tão impiedosamente definitivo que quando ele vem é como um balde de água fria nos acordando de um sonho.
E esse único instante é seguido de um longo tempo indeterminado que tem como função maltratar a memória e sufocar qualquer sorriso. Um tempo cheio de perguntas sem resposta, cheio de vazio.
Quando será que isso vai passar? Quando a gente vai acordar? Quando será que vai chegar outro instante e nos derrubar? Quantos desses instantes a gente pode agüentar?
E aí nos vêem também aquelas perguntas que costumamos evitar e que esses instantes trazem à tona: Estou no caminho certo? Ou pior: estou no caminho que eu quero?
Não sei. Só sei que esse caminho vai acabar num único instante.
11.8.08
Eu quero ficar sozinha
Enjoei de todo mundo que acha que pode tudo e de quem não pode fazer nada.
Meu saco encheu de tanta gente cheia de opinião, de gente que se acha louca, de gente que se acha ponderada, de gente que acha que só os seus defeitos são apontados e de gente que acha que todos os defeitos apontados são dos outros. De quem se acha o umbigo do mundo e de quem não se enxerga.
Estou entediada com tantas vozes, tantas regras, tanta educação e tanta falta dela.
Não agüento mais essas caras de tédio me cercando. E aquelas outras caras de feliz. E aquelas caras de bunda.
Cansei de todo mundo, quero ficar sozinha, porque as pessoas me irritam. As pessoas que têm um discurso politicamente correto e uma vida imoral me irritam. Todo mundo que sabe mais do que todo mundo me irrita.
Até esse texto sem propósito nenhum, a não ser gritar que todo mundo enche o meu saco, me irrita.
Chega por hoje. Ainda é segunda-feira, mas eu estou indo embora.
29.7.08
Um dia...
Outro dia eu saí mais tarde do trabalho, às 21h. Quer dizer, como eu saio todo dia mais tarde, era horário normal de eu sair, mas mais tarde do que deveria.
E ia voltando a pé para casa, não por gostar de fazer exercício ou querer levar uma vida saudável no pouco tempo livre que me resta, mas simplesmente porque é perto demais para usar o carro, quando de repente um sujeito estranho, com a mão debaixo da blusa, me parou e disse para eu passar tudo que eu tivesse na bolsa, discretamente para ninguém perceber.
Em frações de segundo, eu fui da perplexidade de ser assaltada em plena luz de uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a não mais que 100 metros de um ponto de ônibus cheio de gente, à completa indignação. E do alto da minha irritação, sem nem pensar em segurança, eu olhei bem pra cara do desgraçado que estava na minha frente e disse, com minha voz que não é baixa:
- Meu amigo, você acha mesmo que vai levar alguma coisa de dentro da minha bolsa?
Percebi que ele ficou meio perdido. Acho que ele pensou que eu ia ficar apavorada, talvez até esperasse que eu tentasse sair correndo. Mas nunca tinha lhe ocorrido a possibilidade de eu estar vivendo um dia de fúria.
Não dei tempo para ele se recuperar da surpresa.
- O que você acha que eu estou fazendo a essa hora na rua? Com essa cara de acabada, com roupa de escritório? Eu estava trabalhando! Faz 13 horas que eu estou enfurnada num escritório. 13 hooooras! Ontem foram de-zes-se-te horas. Você acha mesmo que eu tenho tanta grana que valha a pena me assaltar? Não, meu amigo! O máximo que eu tenho é cansaço e um calhamaço de serviço que eu ainda tô levando pra casa, pra ver se hoje eu pelo menos consigo passar roupa pra ter com quê ir trabalhar mais amanhã.
O cara estava parado, perplexo. Não parecia entender o que estava acontecendo. Foi abaixando a mão vazia que estava por baixo da camiseta e tentou até se desculpar, mas eu não deixei. Ele tinha que ouvir aquilo.
- Quanto você já levou essa noite assaltando quem passa? Quanto? Provavelmente mais do que eu no dia inteiro. Eu é que devia assaltar você.
Concluído meu rompante, saí andando. Passei pelo tal rapaz pisando firme, bufando, com cara de brava. Ah, tenha dó! Vai assaltar a puta que pariu!
Então eu ouvi alguém andando atrás de mim e falando, com um tom de receio:
- Moça... Ei, moça...
Agora a surpresa era minha. Aquele desgraçado que tinha acabado de tentar me assaltar e levado uma puta desabafada na cara, ainda tinha a pachorra de vir falar comigo.
Virei com cara de sono e grunhi um “hã”.
E ele, todo cuidadoso, perguntou se eu não queria tomar uma cerveja num bar perto dali. Por coincidência, um bar que eu costumo ir com alguns amigos. Pensei que esse filho da mãe até que era gente boa, e acho que minha expressão denunciou meu pensamento, porque ele emendou, sorrindo:
- Cerveja é a melhor coisa pra quando a gente tá puto da vida.
Simpático o rapaz. Comecei a achar que talvez ele tivesse razão e resolvi ir andando até o bar, sem responder pra ele, pra não dar o braço a torcer. Mas ele entendeu, sorriu de novo e veio andando meio correndo até chegar do meu lado.
No caminho não falamos nada, mas no bar ele me disse que tinha saído do emprego àquela hora também e estava cansado daquela ladainha de chegar em casa só para dormir, e não dormir direito, e acordar perdendo hora, e trabalhar de novo, e pagar academia sem fazer uma aula... E que aquele seria seu primeiro assalto. Então, concluiu morrendo de rir, que tudo era tão ridículo que mesmo quando ele chegou ao ponto máximo do absurdo e resolveu tentar assaltar a primeira pessoa que passasse pela frente, não deu certo. Nem aquilo dava certo! E ele estava aliviado por isso.
E eu concluí que, na minha existência tão ridícula quanto à dele, nem mesmo quando eu chego ao máximo do absurdo e enfio o dedo na cara de um palhaço que está querendo me assaltar, eu mudo alguma coisa no mundo. Mas eu também estava aliviada por não ter falado tudo aqui para quem merecia, mais não ia ouvir.
E assim tomamos algumas cervejas, rimos, e fomos embora, cada um pro seu lado, se sentindo meio idiota, mas com uma leve sensação de desabafo e um pouco das mágoas afogadas na mesa do bar.
