15.5.09
Que bicho é esse?
O bicho homem é confuso, se diverte fazendo filmes sobre o que ele morre de medo que aconteça de verdade. Despenca de mentira de brinquedos e corre de verdade de carro.
O homem é um bicho bobo, que mente para os outros tentando enganar a si mesmo, e na maioria das vezes consegue mais enganar a si próprio do que aos outros.
O homem é mais bicho que homem. Escreveu e leu centenas de livros sobre o equilíbrio entre a razão e a emoção, mas ainda não aprendeu a dominar seus instintos.
O homem é um bicho escroto. Acha mais fácil cruzar os braços que dar as mãos.
O homem é um bicho engraçado. Inventou suas asas, mas duvida que existe o céu.
22.4.09
Ela e o Mundo
Ela tem a leveza de quem acredita que sonhos foram feios para ser realizados, a inocência de quem confia que o mundo pode muda, e o sorriso de quem conhece todos os segredos e pode revelar, a qualquer momento, que isso não é só fé. É verdade.
Ela tem fome de um gosto que ela não ainda não conhece, mas que ela quer enfiar inteiro na boca, tudo de uma vez, mesmo que seja para gargalhar da situação depois de cuspir tudo.
Ela tem a desenvoltura de quem não tem medo de transformar a vida em piada e o escracho de quem sabe rir de si mesmo.
Ela tem um desapego que alguns desavisados podem julgar indiferença, e que às vezes beira o despeito, mas que vira e mexe se desapega dela e deixa tudo em volta com cheiro de saudade.
Ela tem o mundo dentro dela, cheio de pontes e ruas sem saída, becos escuros, oceanos e humanidades. E de quem mais é o mundo senão de alguém assim?
15.4.09
O mundo como ele é
O pensamento segue a seguinte lógica: Quando uma coisa é minha, é minha e de mais ninguém. Quando é de todo mundo, eu aproveito, afinal, o direito é de todo mundo. Mas na hora de cuidar, a responsabilidade não é minha. Se a coisa não é só minha, a responsabilidade também não é. E ficamos assim. Simples assim. Na merda.
13.4.09
Nada como um dia de chuva
Não preciso sair na chuva e abrir meus braços para sentir as gotas lavando a minha alma. Só olhar pela janela já é suficiente para me fazer rever momentos e sentir novamente, com a mesma intensidade, ou talvez até mais, o mesmo frio na barriga, o mesmo ar gelado inflando o peito. E então marejar meus olhos e mudar o contorno de minha boca num leve sorriso, quase imperceptível, porque em dia de chuva até o que é triste faz sorrir. Combina.
Da janela vejo o chão molhado formar um espelho gigante, com seus chicletes grudados, uns já pretos de tão antigos, que, como minhas culpas, nunca vão sair dali, e várias folhas pisadas como os sonhos que atropelei.
O som das gotas no vidro me hipnotiza e me faz querer ficar ali para sempre, olhando o dia cada vez mais cinza, sem saber se é porque anoitece ou se é a chuva me dizendo que não tem pressa.
Olhar a água fina tomando conta de todo espaço que não é cidade me dá frio. Mais que aquecida, acabo me sentindo amada pela manta que abraço, mas não com aquele amor que conforta. É um amor daquele que joga na minha cara tudo que eu já fiz, não fiz, já fui e nunca vou ser, para depois poder cobrar a felicidade. E a chuva açoitando a janela é a trilha de toda essa cobrança.
É por causa dessa tristeza que eu adoro dia de chuva, porque é nessa tristeza que encontro comigo mesma e me renovo. Porque essa tristeza fria que pinga do céu me tira da alegria letárgica do dia-a-dia, aquela que a gente nem percebe e que anestesia, para deixar tudo mais intenso.
No cinza dos dias de chuva, as outras cores têm mais força e os sentimentos, mais sinceridade. No frio dos dias de chuva, minhas lágrimas são mais quentes, meus abraços, mais fortes. Nos dias de chuva, eu me entrego à minha solidão e me basto.
6.4.09
Antes e Depois
Eu sei que antes é expectativa. Depois é a verdade.
Antes de pedir um beijo, você é linda, inteligente, culta e escreve bem. Depois de receber um não, você se acha e eu vou mostrar que eu posso muito mais do que você.
Antes da crise, vamos selecionar nossos clientes e atender só os grandes, que deem visibilidade à empresa. Depois da crise, vamos atender qualquer um que pague qualquer coisa.
Antes de conhecer os motivos e a história, um julgamento duro e cruel. Depois, a culpa.
Antes de pedir um favor, simpatia, elogios, voz mansa e agradável, brincadeirinhas. Depois de tudo feito, desprezo.
Antes do sim, quando é que vocês vão casar? Depois do sim, quando é que vocês vão ter filhos?
Antes de trair a dieta, uma vontade tão grande que não dá pra aguentar e só um pouquinho não vai ter problema. Depois de cair de boca no mundo, a sensação de fracasso.
Antes de perceber a má intenção, inocência. Depois, burrice.
Antes do sábado, o estresse do trabalho. Depois do domingo, o cansaço das baladas, churrascos e bebedeiras.
Antes de pagar as contas, azul. Depois, vermelho.
Antes de escrever este texto, um monte de coisas entaladas na garganta. Depois do ponto final, saber que nada vai mudar.
1.4.09
Tédio
O problema é que não é só isso. As pessoas, o trabalho, a louça na pia, não saber o que fazer no jantar, as contas, o todo dia, tudo me entedia. E essa é a melhor desculpa para enfiar qualquer coisa goela abaixo e alimentar a geleia.
Só que, sabendo que isso é uma desculpa, eu deveria criar vergonha na cara e parar de comer. Mas eu não paro. Não paro porque alguma coisa tem que ser boa, e comida é bom. Além disso, não é a geleia que causa o tédio, e sim o tédio que me causa a geleia. E esse eu não sei de onde veio, só sei que ele já se instalou e não quer saber de sair.
Aí outro dia fiz um exame de sangue que mostrou uma alteraçãozinha. Um problema de tireóide que, entre outras coisas, causa aumento de peso e depressão.
Maravilha! Descobri de quem era a culpa de tudo e, como já tinha marcado o médico, podia me atirar de braços abertos à total falta de vontade da vida e aos pacotes de bolacha, para aumentar o problema que vou jogar nas mãos do médico.
E por alguns dias isso tirou da minha cabeça a preocupação com aquela falta de perspectiva e até me trouxe um pouquinho de felicidade. Mas só por alguns dias, porque o tédio é uma coisa engraçada, que deixa a gente sem vontade de nada, mas também não deixa a gente quieta.
O tédio veio me perguntar se eu acho realmente que todos os meus problemas vão acabar assim que o endocrinologista me examinar. E ainda jogou na minha cara que a receita dele não vai ser milagrosa. Depois ainda cavocou meu cérebro na tentativa de encontrar as suas raízes. E, não sei se você sabe, mas as raízes do tédio são todas pontos de interrogação: Será que eu consigo fazer essa receita que tem mais de 5 ingredientes? E a sujeira que ela vai fazer? E será mesmo que ninguém lê texto de propaganda? Quem vai ler um texto de remédio para porco? E um anúncio que tem uma imagem bonita? Mas, se ninguém lê, por que eu tenho que virar madrugadas escrevendo? E por que o aluguel é tão caro? Por que eu não jogo uma mochila nas costas e saio pelo mundo sem me preocupar com aluguel? E por que eu não arrumo um bebê? Será que vai dar tempo agora? E depois? E esse monte de não-sei que eu tenho que responder pra mim mesma me cansa e me deixa sem saber o que fazer.
Na verdade, eu até sei o que eu tenho que fazer, mas me falta coragem. Essas dúvidas são várias pás cavando um único buraco de onde fica cada vez mais difícil de sair, mesmo quando você vê a luz logo em cima da sua cabeça.
Até eu mesma me saboto. Todo dia acordo com um sonoro “welcome to your life” que eu escolhi para tocar no despertador. E antes que eu consiga afastar todos esses pensamentos da minha cabeça ensonada, já vem a irônica emenda “there’s no turning back”. E assim eu volto à geleia, ao trabalho, às contas, ao todo dia e aos não-seis.
E esse texto está ficando longo e não vai ter nenhuma conclusão porque eu mesma ainda não cheguei a nenhuma conclusão sobre o que fazer com toda essa merda que eu despejei aqui.
2.3.09
Quando o tempo não dá tempo
Vai se orgulhar de ter aproveitado cada momento?
Lamentar as oportunidades perdidas? Não ter 10 ou 20 anos a menos?
Começar a planejar cada detalhe do resto da sua vida como nunca nem tinha pensado em fazer antes de perceber a urgência com que os dias viram anos?
Gabar-se de todos os detalhes de cada conquista daquilo que norteia a sua vida? Dar o braço a torcer de que aquilo que você acreditou nortear a sua vida era apenas uma parte dela?
Blasfemar todo açúcar e toda gordura com que você se deliciou, arrependido por ter trocado sua saúde e um corpinho ajeitado por prazeres momentâneos? Invejar todos que conseguiram controlar essa tentação, porque agora parece que eles têm mais tempo e muito mais do que se orgulhar do que você?
Jogar tudo para o alto e mudar de direção para, no final, poder dizer que já fez loucuras?
O que você vai pensar quando se der conta das possibilidades que suas escolhas deixaram para trás? Vai querer voltar no tempo?
Vai convidar um amigo para tomar café e desabafar, na esperança de que ele acalme suas angústias dizendo, sem se dar conta, tudo que você quer ouvir?
Pintar o cabelo de uma cor diferente e comprar uma roupa nova para experimentar como você seria se fosse diferente do que você é?
Começar a ouvir jazz e tomar vinho para provar para você mesmo que o tempo passando significa evolução? Ou diminuir o tamanho das roupas e comprar um carro esporte para negar a implacável marcha dos anos?
Vai desejar ter praticado um pouco mais, sem culpa, alguns pecados capitais?
O que você vai fazer quando o que aparecer no espelho não for mais tão parecido com aquela foto da formatura? Quando você fizer aniversário quase no dia seguinte do seu aniversário anterior? O que você vai desejar quando cortar o bolo?
E agora? O que você vai fazer agora?
27.1.09
Dueto em Segredo
Ele é um homem casado, bem resolvido.
Ela, uma boa dose de diversão.
Ele, o charme da maturidade.
Ela, o elixir da juventude.
Ele, a independência.
Ela, a confusão de pensamentos.
Ele, o sabor do proibido.
Ela, os sonhos.
Ele, as certezas.
Ela, a espera.
Ele, a chegada.
Ela, o brilho nos olhos.
Ele, as palavras certas.
Ela, as desculpas esfarrapadas.
Ele, as histórias cuidadosas.
Ela, o instinto incontrolável.
Ele, o instinto de sobrevivência.
Ela, a pele pedindo.
Ele, a auto-afirmação exigindo.
Ela, a ilusão do feminismo.
Ele, devoto do machismo.
Ela, a inconseqüência.
Ele, o risco.
Ela, a conquista dele.
Ele, a perdição dela.
29.12.08
Saudade
Sinta falta de deitar com você na cama e ficar brigando contra o sono, só pra poder aproveitar um pouquinho mais a sua companhia. Não sei como vou ficar agora sem suas palavras, mesmo as amargas.
Eu sei que a culpa é minha, que fui rápido demais e que por isso esse fim chegou assim, de repente, me deixando parada, de boca aberta. E o pior é que quanto mais rápido eu mergulhava nessa nossa relação, mais próximo eu via o fim, mas eu não podia parar. Não naqueles momentos tão mágicos, tão íntimos, em que eu degustava cada pedacinho seu, saboreando cada detalhe seu com verdadeira fome.
Você pode dizer que outros virão e me deixarão tão ou até mais feliz que você. Outros me farão chorar. Tantos outros vão passar pela minha vida e me deixar marcada. E eu sei tudo isso. Ainda agora, enquanto choro nosso fim, já procuro outro para o seu lugar.
Não me critique por isso, por favor. Você é único, e sempre será especial. Nunca vou esquecer tudo que vivemos, mas você sabe que eu não sei ficar sozinha. Por isso vou até a estante me jogar nas páginas de outro.
Odeio quando isso acontece, e isso sempre acontece quando acabo um bom livro.
11.12.08
Química
Eu olhei para o céu e vi centenas, milhares de pára-quedas de celofane azul. Imensos, abertos. Mas eles não caíam, apenas flutuavam suavemente.
E conforme eu me perdia nessa dança azul, um gosto adocicado tomou conta da minha boca. Um gosto que me fez fechar os olhos para que eu pudesse sentir melhor e ser completamente só daquele gosto. Pertencer a ele. Um gosto delicadamente doce que começou a pinicar a sola do meu pé levemente, e que puxava os cantos da minha boca em direção às orelhas.
Mesmo que eu não quisesse, meus lábios se esticavam até as bochechas. Mas o caso é que não tinha querer ou não querer. A pinicação no pé começava a virar cosquinha (diminutivo carinhoso de cócegas, para quem não sabe) e o estômago gelava e se contraía, me fazendo rir incontrolavelmente.
Depois de ficar quase sem ar, aos poucos meu coração foi se acalmando, a respiração desacelerando. Minha pele estava gelada e o ar em volta de mim ficou quente, tão quente que senti um cheiro seco, vermelho, me sufocando. E aquele ar quente e vermelho era denso, tão denso que eu não tinha força de puxar para dentro do pulmão.
Os olhos foram escurecendo, escurecendo, e um medo angustiante deixou vazio tudo que tinha dentro de mim, como se minha alma estivesse aos poucos se desgrudando do meu corpo. E tudo ficou preto e gelado tão rápido que minha cabeça rodou, rodou, até que vi uns pontinhos brilhando no meio da escuridão.
Então percebi que havia anoitecido e as estrelas olhavam para mim. Todas elas observavam cada movimento meu, por menor que fosse.
O único movimento que fiz foi abrir os braços olhando para elas, para sentir aquele abraço protetor de veludo preto brilhante que me fazia a pessoa mais livre do mundo. Livre para ser eu mesma, para sempre.
Não, não é vício, é só a química. A química que existe entre nós.
